Projecto Aldeia Nova - Aldeamentos em Angola
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Escrita por: Aldeia Nova   

Projecto Aldeia Nova, Waco Cungo
Foto: Rui Galhanas, PAN
Dos oito aldeamentos abrangidos pelo Projecto Aldeia Nova no município da Cela, cinco dedicam-se exclusivamente à exploração avícola e outro é misto com gado leiteiro. O total da produção engloba 260 pavilhões dos quais já estão concluídos 120 para galinhas poedeiras - localizados nas aldeias 2 e 4, com 40 e 80 pavilhões, respectivamente -  e 20 pavilhões para a cria e recria, localizados na Aldeia 3. Destes 120 estão povoados os 40 pavilhões da Aldeia 2 – com 39.200 galinhas em produção e cerca de mil em início de produção – outros 19 pavilhões na Aldeia 4 – com cerca de 18.400 galinhas em início de produção – e 5 pavilhões na Aldeia 3 com pouco mais de 10 mil frangas em criação.

Nos restantes 120 pavilhões, ainda em fase de acabamentos nas aldeias 6, 7 e 8, será desenvolvida a produção de frangos de carne que servirão de suporte ao funcionamento do matadouro. Destes pavilhões, 17 estão na Aldeia 6, 27 na Aldeia 7 e os restantes 76 na Aldeia 8.

Estes números dão uma ideia da importância que a avicultura tem para a Aldeia Nova. A produção de ovos para consumo é, por enquanto, a actividade mais rentável entre os diversos tipos de criação e mesmo para o Centro Logístico. Como diz Rui Flora, o responsável por este sector, “os ovos estão sempre vendidos”.

Do ovo à galinha

Na área avícola, o Projecto Aldeia Nova do Waco Cungo está equipado com todas as estruturas necessárias para o seu funcionamento e desenvolvimento. Só não é auto-suficiente por ter de importar os ovos para incubação. Rui Flora, o responsável pelo sector, explica nesta entrevista como funciona o sistema e as razões do sucesso que esta actividade tem estado a registar.


Qual é o objectivo desta incubadora?

É a produção de pintos de carne e de postura. Tem a capacidade suficiente para as metas do Projecto que são cerca de 23 milhões de ovos/ano e cerca de 2.000 toneladas de carne/ano. 

Esses são os totais da produção estimada quando todos os avicultores do Projecto estiverem instalados e a produzir em pleno?

Exactamente. Quando os pavilhões avícolas estiverem todos a funcionar.

A incubadora funciona só para os criadores das aldeias?

Neste momento estamos a prestar alguns serviços para criadores fora do Projecto porque ainda não temos produção suficiente para ocupar toda a capacidade da nossa incubadora. Como os pavilhões das aldeias 6, 7 e 8 ainda não estão operacionais, a nossa produção de frangos de carne ainda não se iniciou. Por enquanto, só estamos a fazer produção de pintos de postura e isto é cíclico a cada 2 meses e meio. Por conseguinte, temos cedido esse excedente de capacidade para pintos de carne para os aviários da Munenga e, recentemente, para os aviário da Pecac de Luanda.

Estes serviços com pintos de carne, feitos para outros clientes, também servem de formação ao pessoal...

Sim, serve de formação e até de rodagem para as próprias máquinas porque uma coisa é incubar e eclodir ovos de postura e outra coisa são pintos de carne. Aqui variam um bocado os níveis da temperatura e da humidade.

Com que máquinas está equipada a incubadora?

Temos três máquinas incubadoras de 38.400 ovos cada uma e duas máquinas eclosoras de 19.200 ovos cada que cobrem a capacidade. Estamos capacitados para fazer a incubação e eclosão de 38.400 ovos por semana.

Quantos trabalhadores estão afectos a estas actividades?

Neste momento somos cinco, contando comigo, mas vamos fazer a admissão de mais quatro.

Quais são as funções que eles exercem?

Temos trabalhadores de dia e de noite para acompanharem as incubações e eclosões em permanência. Durante a noite é necessário fazer a vigilância dos níveis da temperatura e da humidade nas máquinas, para além de qualquer avaria que possa surgir. Eles estão munidos de telemóveis para participar de imediato qualquer anomalia. Nos outros dias participam nas vacinações por injecção nas aldeias, no corte de bicos e formam os criadores nessas matérias.

Qual a origem dos ovos de incubação?

Para os nossos pintos de postura são originários da África do Sul e do Zimbabwe. Os que estão a vir para os pintos de carne dos aviários da Munenga e da Pecac são provenientes da Zâmbia.

Quais as estirpes que estão a ser utilizadas?

Nos pintos de postura já trabalhámos com a Isa Brown, a H&N e, ultimamente, com a Lohman. Nos pintos de carne fizemos uma primeira incubação de Hubbard e agora estamos a trabalhar com a Avia Cobb 48 que são estirpes super-pesadas: quando os frangos atingem as seis semanas de idade chegam a ter dois quilos de carne. De referir que já está em criação, na Fazenda 16, o primeiro lote dos efectivos de reprodutores super-pesados da estirpe Ross que produzirão os ovos de incubação para a produção de pintos de carne necessários, tanto para o Projecto como para os aviários da Munenga e, quiçá, para os da Pecac e outros produtores de frangos de carne.

Como funciona o circuito? Os ovos são importados...

São importados, incubados durante 18 dias e depois vão para as eclosoras. Ao fim de 3 dias são retirados das câmaras de eclosão e são seleccionados para se retirar o refugo: os pintos defeituosos e os machos, no caso dos pintos de postura.

A percentagem de refugo tem sido aceitável?

Tudo depende das origens e varia consoante os lotes. Temos incubações muito boas em que a percentagem de refugo é muito baixa e outras em que sobe um bocado. Isto porque nós procuramos ser muito criteriosos na selecção e tudo o que não presta pomos de lado. Depois é que, por vezes, podemos recorrer a uma segunda escolha do refugo.

Para onde seguem os pintos de postura?

Vão todos para a Aldeia 3 que é a única preparada para a cria e recria. Cada criador recebe cerca de 2.400 pintos, suficientes para o povoamento de dois pavilhões de produção de ovos. Os pintos são distribuídos com um dia de vida e são criados e recriados durante 17 semanas. Depois deste período as frangas são transferidas para os pavilhões de postura nas aldeias 2 e 4 onde cada criador recebe mil e oito frangas.

Qual é o nível de mortalidade na fase de cria e recria?

Por doença é muito baixa. Os maiores índices de mortalidade têm surgido por canibalismo que, aqui, é muito violento dada a luminosidade que existe em determinadas épocas do ano e também por pequenas deficiências que ainda temos em algumas etapas do fabrico de rações. Por ausência de uma ou outra matéria prima temos que lhes dar, por vezes, algumas rações não específicas. Tudo isto pode causar algum canibalismo, mas o nosso grande problema são os acidentes especialmente com o aparecimento de cães vadios nas proximidades da Aldeia 3. Os cães sentem que há aves na aldeia, atiram-se às redes dos pavilhões e provocam sustos às frangas que, por se amontoarem, morrem por asfixia.

A mortalidade provocada pelos cães vadios tem sido preocupante?

Nalguns casos sim. Houve uma noite em que se perderam mais de mil frangas.

Quando se iniciou este projecto avícola?

Nós começámos com um lote experimental de 12 mil pintos importados da África do Sul em Novembro de 2006. O processo de incubação local só teve início em Dezembro de 2006 a partir de ovos de incubação importados do Zimbabwe e da África do Sul.

Quantos pintos já foram entregues, no total, aos criadores desde estão?

Até ao momento, todas as pintas de postura produzidas localmente, cerca de 79.100, foram entregues aos criadores da Aldeia 3

Qual o custo final do pinto criado?

Neste momento estamos a fazer um levantamento para calcular os custos. Estabelecemos para o primeiro lote um determinado valor mas chegámos à conclusão que eram bastante baixos para os gastos de uma franga. Mas de qualquer maneira respeitámos esse custo que estava estipulado no caderno do Projecto Aldeia Nova: 17 semanas/4 dólares.

Como são efectuados os pagamentos?

Todos os criadores têm uma conta corrente no Centro Logístico que faz a gestão de toda a produção. O financiamento do fornecimento de todos os inputs e a comercialização das produções dos criadores...

E depois da fase de cria e recria?

Depois das 17 semanas vão para as naves da produção de ovos das aldeias 2 e 4, as únicas nesta área. A Aldeia 2 tem capacidade para cerca de 40 mil aves e a Aldeia 4 para cerca de 80 mil.

Como tem sido a produção das poedeiras?

Temos atingido resultados muito bons na produção de ovos. Resultados que nem sequer os produtores de Luanda e outras províncias pensam atingir um dia. As produções têm sido muito boas, atingimos picos muito elevados que se mantêm durante bastante tempo.

Picos na ordem dos 80%?

Não! Na ordem dos 96%. Tivemos o caso de um criador, no lote experimental, que teve 3 dias seguidos a 100%. Todas as galinhas puseram ovo. Neste momento há criadores que já ultrapassaram até os 97% e que ainda se mantêm acima dos 90%.

A que se deve essa excelente produtividade? Às estirpes escolhidas, à qualidade das rações fornecidas, ao apoio técnico?

A todos esses factores mas também há que salientar os nossos criadores porque são muito cuidadosos com as aves que têm. E cada um só tem mil aves. Quando nós transportamos esta situação para aqueles que têm 100 mil torna-se mais difícil ter esta atenção. Outro factor a destacar é o clima desta região que é excepcional para a produção de ovos. Com a excepção de uns casos de diarreia que surgiram no lote experimental na Aldeia 2, provocados pela má qualidade da água que depois foi corrigida e parou, não se registou aqui mais doença nenhuma. Nenhuma doença respiratória, nenhuma salmonela, nenhuma uma coccidiose no chão, quase sem camas. Nada. Nós quase não gastamos dinheiro em medicamentos.

Qual é o tempo útil de uma galinha poedeira?

Quando as frangas com 17 semanas chegam aos pavilhões das poedeiras, nós esperamos mais uma semana, a 18ª, que é considerada a data da maturidade sexual – que é quando ela começa a por o primeiro, segundo ovo – e para se habituarem à gaiola porque vêm da cria e recria que é feita no chão. Mas a postura só se começa a estabilizar nos 5% a 10% na vigésima semana. A partir daqui consideramos sempre mais 52 semanas de produção. Depois só se abate a ave no caso de ela estar com produções baixas. Isto ao fim de um tempo de vida total de 72 semanas.

Depois do tempo útil quem comercializa a galinha?

Também é o Centro Logístico. Está-se a preparar o matadouro para as abater quando chegar essa fase. Por enquanto são vendidas vivas e no último lote de cerca de 8 mil galinhas de reforma houve grande procura já que foram vendidas no espaço de uma semana. Chegam a atingir entre 1,8 kg e 2 kg. É uma boa galinha para os nossos pratos tradicionais.

A que preço é vendida a ração ao criador?

Agora está mais barata. Começou por ser vendida a cerca de 60 Kz o quilo. É o preço que se pratica em Luanda e eu também considerava que era caro. Com a entrada do Dr. Russo para a direcção do Centro Logístico ele fez baixar para os 48 Kz o quilo e eu acho que é um preço justo.

Este actividade avícola tem tido um efeito multiplicador junto de outros pequenos agricultores que não pertencem ao Projecto?

Sim, têm demonstrado interesse mas nós de momento sentimos dificuldade em lhes fornecer as rações, em primeiro lugar, e depois em prestar a assistência técnica. É uma situação que está nos nossos horizontes mas, de momento, não temos capacidade de resposta. Se disseminássemos agora os nossos efectivos pela zona iríamos criar um ambiente propício a que as doenças se propagassem podendo por em risco os nossos próprios efectivos. Enquanto nós não tivermos as condições ideais criadas de apoio técnico, vacinações, rações adequadas, etc., estamos relutantes em disseminar efectivos pelas redondezas.

A exploração avícola foi então uma excelente aposta...

Aquilo que eu afirmo, contrariamente ao que muita gente pensa, é que é possível levar-se famílias que nunca criaram uma galinha na vida a tornarem-se altos produtores. Assim como é possível este projecto ser transportado para outros lugares e ter o mesmo efeito e os mesmos resultados. Um exemplo recente são as famílias que chegaram agora à Aldeia 4. Nunca fizeram criação e receberam agora frangas pela primeira vez. Levámos essas famílias em grupos de 10 à Aldeia 2 para se inteirarem dos pormenores da condução da produção de ovos e apreenderam de imediato os pontos mais importantes. Eles são muito interessados e dedicados à criação.

Condições básicas para incubação

Na Natureza os ovos são incubados pela ave que o pôs ou por outra ave da mesma espécie ou até de espécie diferente. Artificialmente usam-se as incubadoras, caseiras ou industriais, que devem respeitar as mesmas condições ambientais óptimas de temperatura, humidade e ventilação atingidas pela incubação natural. Só assim se consegue o desenvolvimento do embrião da ave e o nascimento de pintos robustos e saudáveis.

Para se realizar uma incubação com sucesso, os ovos devem ser de elevada qualidade, com alta percentagem de fertilidade, intactos, sem micro-organismos patogénicos e com menos de uma semana de idade. Factores como temperatura, ventilação e humidade têm de estar nos níveis correctos.

Na incubação artificial o factor higiene é fundamental porque os ovos contém o substracto ideal para os micróbios e as temperaturas da incubação são perfeitas para a infecção, propagação e desenvolvimento destes patogénios. Por esta razão, a limpeza e desinfecção devem ser constantes em todas as áreas associadas à incubação, desde os próprios ovos aos equipamentos, às instalações e aos trabalhadores.

Última Atualização ( 04-Dez-2008 às 15:05 )
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